Entre resolver e explicar, existe estruturar

Recentemente, um médico no sertão de Pernambuco começou a desenhar receitas para pacientes que não sabiam ler.

Em vez de instruções escritas, ele passou a usar símbolos simples: um sol para a manhã, uma lua para a noite, círculos para indicar a quantidade de comprimidos.

A mudança parece pequena, mas o efeito foi direto: os pacientes passaram a entender, a seguir o tratamento e, consequentemente, a melhorar.

Ao mesmo tempo, existe um campo consolidado que trata da literacia em saúde, também chamada de letramento em saúde: a capacidade de uma pessoa obter, processar, compreender e utilizar informações de saúde para tomar decisões adequadas sobre o próprio cuidado.

Não se trata apenas de ler uma orientação médica, mas de entender o que ela significa e conseguir agir a partir dela.

Nesse campo, profissionais estudam como tornar a comunicação em saúde mais acessível e compreensível. O objetivo é fazer com que a informação deixe de ser apenas entregue e passe a ser compreendida.

Os dois caminhos funcionam, mas partem de lugares diferentes.

O médico observa um problema real e cria uma solução imediata. A ciência observa o problema, organiza o conhecimento e constrói uma explicação estruturada.

Um resolve. O outro explica.

Entre resolver e explicar,
existe estruturar.

O terceiro movimento

O que quase não aparece é um terceiro movimento: organizar a forma da solução.

Porque o que o médico fez não foi apenas desenhar.

Ao transformar a receita em imagem, ele criou uma estrutura.

Existe ali uma sequência: quando tomar. Existe uma quantificação: quanto tomar. Existe uma codificação simbólica: como entender.

Mesmo sem nomear, ele estruturou o conteúdo de forma que a compreensão se tornasse mais provável, mais direta, mais acessível.

Quando a solução fica isolada

Sem esse tipo de estrutura, muitas soluções permanecem isoladas.

Funcionam em um contexto específico, mas não se tornam replicáveis. Cada novo problema exige um novo esforço, como se nada tivesse sido aprendido antes.

Por outro lado, quando a estrutura aparece, ela permite que a solução seja reconhecida, adaptada e reutilizada.

É nesse ponto que algo muda de natureza.

A solução deixa de ser apenas uma resposta pontual e passa a ter potencial de linguagem. Não depende mais exclusivamente de quem criou, nem precisa ser redescoberta a cada vez. Ela pode ser ensinada, combinada, ampliada.

A estrutura que já estava lá

Talvez o mais interessante seja perceber que essa estrutura já está presente em muitos lugares, mesmo quando não é nomeada.

Quando alguém organiza uma ideia em etapas
A sequência ajuda o pensamento a ganhar ordem e direção.
Quando alguém compara alternativas
A comparação revela diferenças, aproximações, escolhas e critérios.
Quando alguém sintetiza uma informação em um esquema ou mesmo anotações simples
A síntese reduz o excesso e preserva o que precisa ser compreendido.
Quando alguém transforma uma explicação difícil em uma forma mais acompanhável
A forma diminui o esforço de leitura e aumenta a chance de compreensão.

Está ali, operando, mas raramente é tratada como o elemento central.

A Desenhando Conteúdos nasce justamente nesse intervalo: entre aquilo que precisa ser compreendido e a forma que pode tornar essa compreensão possível.

Entre prática e ciência

O trabalho do médico impressiona porque nasce ali, no atendimento, diante de pessoas que precisavam cuidar da própria saúde, mas não conseguiam seguir uma receita escrita. Ao perceber essa falha, ele criou uma solução simples, humana e eficiente.

Já a literacia em saúde oferece outro tipo de contribuição: pesquisa, validação, repertório científico e institucionalidade. Ela ajuda a explicar por que certas práticas funcionam, como podem ser avaliadas e de que modo podem ser incorporadas em ambientes de saúde mais complexos.

Mas entre a prática intuitiva e a ciência consolidada existe um território próprio.

É o território da forma.

O que o médico percebeu no atendimento

No atendimento, a falha não aparecia como teoria. Aparecia como dificuldade concreta: o paciente saía com uma orientação, mas nem sempre conseguia transformá-la em cuidado.

A receita escrita não bastava
A informação estava no papel, mas nem sempre chegava como orientação compreensível para o paciente.
A comunicação falhava no momento mais importante
O paciente precisava sair da consulta sabendo o que fazer, quando fazer e como seguir o tratamento.
Os símbolos criaram uma ponte
Sol, lua, círculos e desenhos simples passaram a traduzir horários, quantidades e orientações.
A orientação ganhou sequência
O tratamento deixou de ser apenas uma frase escrita e passou a ter uma ordem visual mais fácil de acompanhar.
O cuidado ficou mais possível
Quando a pessoa entende melhor a orientação, aumenta a chance de seguir o tratamento corretamente.

Ao perceber essa falha, ele criou uma solução simples, humana e eficiente.

Mas, quando olhamos para esse caso pelo ponto de vista da estrutura, a pergunta deixa de ser apenas: “isso funciona?” ou “qual teoria explica isso?”. A pergunta passa a ser:

Que estrutura torna essa solução compreensível,
ensinável e replicável?

O lugar da Desenhando Conteúdos

Talvez seja aí que a Desenhando Conteúdos encontre uma de suas tarefas mais importantes.

Não substituir a prática. Não substituir a ciência. Não substituir a escrita, o design, a educação ou a comunicação em saúde.

Mas ajudar a perceber a estrutura que existe entre uma intenção e sua compreensão. Porque, muitas vezes, o problema não está apenas no conteúdo. Está na forma que esse conteúdo assume — ou deixa de assumir.

Entre quem resolve um problema e quem o explica, existe quem organiza a forma como ele pode ser compreendido. E é nesse terceiro lugar que algumas das mudanças mais silenciosas — e mais profundas — começam a acontecer.

Prática, ciência e estrutura — Mini FAQ

1. O que esse caso do médico revela?
Revela que, muitas vezes, o problema não está apenas no conteúdo, mas na forma como ele é apresentado. Quando a receita foi desenhada, a instrução ficou mais compreensível e mais fácil de executar.

2. Qual é a diferença entre resolver, explicar e estruturar?
Resolver é criar uma resposta prática para um problema. Explicar é compreender e validar essa resposta com base em conhecimento, pesquisa ou teoria. Estruturar é organizar a forma da solução para que ela possa ser compreendida, ensinada e reutilizada.

3. Isso é apenas uma habilidade visual?
Não apenas. O visual ajuda, mas o ponto central está na estrutura: sequência, quantidade, símbolo, comparação, etapa, relação. A imagem é uma camada tangível de uma organização mais profunda.

4. Qual é a relação com a literacia em saúde?
A literacia em saúde busca tornar informações de saúde mais claras, acessíveis, compreensíveis e aplicáveis. A Desenhando Conteúdos pode dialogar com esse campo ao ajudar a transformar orientações em estruturas visíveis, mais fáceis de acompanhar e aplicar.

5. Onde entra a Desenhando Conteúdos?
A Desenhando Conteúdos entra nesse terceiro lugar: entre a prática que resolve e a ciência que explica. Sua contribuição é ajudar a nomear, organizar e tornar replicáveis as formas que favorecem a compreensão.


Notas e créditos

(1) Referência de contexto: este texto foi desenvolvido a partir da notícia sobre o médico Lucas Cardim, que passou a desenhar receitas para pacientes com dificuldade de leitura e criou uma plataforma em Pernambuco para apoiar a comunicação em saúde. Ver: matéria publicada pela Folha de S.Paulo.

(2) Reflexão editorial: a análise parte de uma conversa sobre a relação entre prática, ciência, literacia em saúde e a abordagem Desenhando Conteúdos, especialmente a diferença entre desenhar como habilidade visual e estruturar como linguagem.

(3) Apoio de IA: este post foi desenvolvido com apoio de inteligência artificial, a partir de orientação editorial humana, revisão, curadoria e aplicação da abordagem Desenhando Conteúdos.

(4) Categoria: Percepção. Este post observa como uma solução prática pode revelar estruturas de compreensão que ainda não foram nomeadas como linguagem.

(5) Formatos DC: foram utilizados formatos como Aspas, Lista ilustrada, Checklist, Passo a passo e Mini FAQ para tornar mais visível a relação entre pensamento, forma e comunicação.

(6) Imagens: ícones e elementos visuais de apoio, quando utilizados, devem ser creditados conforme a licença da plataforma de origem, como Flaticon, Freepik ou banco visual equivalente.

É coautor da Desenhando Conteúdos (DC), uma abordagem visual que ajuda pessoas a darem forma ao que pensam e ao que querem comunicar.
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